por Henry Galsky, IsraelNão foi por acaso que os dois maiores jornais israelenses escolheram a mesma manchete para definir os resultados das eleições: "reviravolta" parece ser mesmo a palavra da moda no cenário político de Israel. E não apenas pelo quantidade de votos que cada partido recebeu; não apenas pela drástica queda do então todo-poderoso Likud; não apenas pela ascensão dos partidos pequenos. As eleições do dia 28 de março já fazem parte da história do páis por todas as razões acima. Mas também por nenhuma delas. Este foi o ano em que o eleitor deixou claro que a politica não lhe é mais tão interessante.
Apenas 63% dos cidadãos compareceram as urnas (o voto nao é obrigatório) após uma das mais frias campanhas políticas dos quase 58 anos de existência de Israel. Este é o segundo menor índice da história e perde apenas para as eleições de 2001, quando Israel enfrentava o auge da segunda Intifada palestina. Para ter a exata noção do que este número representa, basta saber que, até 1999, o índice ficava próximo à casa dos 80%.
De qualquer maneira, o eleitorado israelense parece ter escolhido três grandes ideologias genéricas para representá-lo no próximo parlamento: a objetividade do Kadima - partido fundado por Sharon -, o tradicional voto na esquerda, e, por fim, o bem-humorado - e inesperado - protesto.
O grande vencedor não pôde ver sua vitoria. Apesar de Ehud Olmert ter sido eleito o próximo primeiro-ministro, está muito claro que Ariel Sharon foi a grande escolha. Ou melhor, sua ideologia de retirar-se unilateralmente dos territórios palestinos e formar as fronteiras definitivas de Israel até, no máximo, 2010. O Kadima argumenta que não há parceiros para a paz do lado palestino e, por isso, pretende dar continuidade a construção da polêmica barreira de seguranca. Olmert não se fez de rogado e soube usar com sabedoria sua proximidade com o ex-primeiro ministro. "No caminho de Sharon" foi seu estratégico slogan de campanha. Concorrendo pela primeira vez, o Kadima mostra força ao conquistar 29 das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento israelense. Olmert pretende retirar praticamente todas as colônias judaicas da Cisjordânia, mas deseja manter os três maiores blocos de assentamentos. "É o 'sim' do povo de Israel ao meu plano. Se nao podemos negociar com os palestinos, vamos tomar nosso destino pela mão e agir unilateralmente", disse o novo primeiro-ministro logo após o término da apuração.
No segundo escalão, o Partido Trabalhista conseguiu manter praticamente o mesmo número de parlamentares (conquistou 20 cadeiras. Antes, possuia 19). Grande parte da sociedade israelense se identifica com os ideais de esquerda. Foi ela que fundou o país e dominou o cenário político de Israel por quase 30 anos. O até então desconhecido líder sindicalista Amir Peretz conseguiu seguir a linha de líderes históricos israelenses e o Avodah deve ocupar de seis a sete ministérios no novo governo. Entretanto, Peretz deve encontrar problemas numa possível coalizão com o Kadima, já que recusa-se a formar um gabinete com Avigdor Liberman, uma das grandes surpresas destas eleições, e a quem definine como "um novo tipo de Le Pen" (em referência ao político de extrema-direita francês). Os trabalhistas também buscam novas opções de coalizões e podem vir a unir-se aos religiosos do partido Shas e também aos Aposentados.
Lieberman, um dos mais de um milhão de judeus russos que emigraram para Israel desde o início dos anos 1990, é o líder do partido Israel Beitenu ("Israel, a Nossa Casa"), que conseguiu 11 cadeiras no novo parlamento - em 1999, apenas quatro parlamentares do partido estavam no Knesset. Lieberman defende uma polêmica solução para os problemas de fronteiras de Israel: a inclusão de parte da Galiléia israelense - bastante povoada por vilarejos árabes - em troca da anexação e expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Seu slogan em russo "nyet, nyet, da" ("nao, nao, sim"), que buscava identificar Olmert, Peretz e Netanyahu como "gatos dos mesmo saco", parece ter seduzido parte do eleitorado e, principalmente, dos imigrantes.
A grande surpresa foi a conquista de sete cadeiras pelo Partido dos Aposentados. No dia das eleições, jovens faziam boca-de-urna para o partido vestindo camisetas com o slogan de "Salve o seu avô". A ascensão do partido que tem como principal plataforma o aumento da aposentadoria é vista pelos comentaristas políticos como um protesto contra o sistema político. É o voto dos que perderam a confiança nos partidos tradicionais. O partido parece mesmo ter conseguido unir em torno de si as vozes dos insatisfeitos. E também de muitos jovens. Cerca de 10% de seus votos vieram de cidadãos com menos de 29 anos de idade e somente 60% de seus eleitores têm mais de 60 anos.
Tambem é consensual que o partido Likud sai como o maior derrotado destas eleições. O a princípio apelativo slogan de "Forte contra o Hamas" não surtiu efeito. A direita neo-liberal israelense conseguiu apenas 12 cadeiras. É um número bastante pequeno, levando-se em conta que, em 2003, o partido chegou a contar com 38 deputados no Knesset. Em relação ao conflito com os palestinos, o Likud propõe a manutenção dos assentamentos. De fato, sua grande derrota ocorreu antes mesmo das eleições, quando Sharon deixou o partido para fundar uma nova legenda que o apoiasse em seu plano de retiradas unilaterais dos territórios reivindicados pelos palestinos. O atual líder do Likud, o ex-primeiro ministro Benjamin Netanyahu, sai como o grande perdedor destas eleições gerais.
Eleito para os próximos quatro anos, Ehud Olmert seguramente encontrara dificuldades para lidar com um espectro político tão complexo. Por um lado, recebeu um voto de confianca para seguir em frente com as retiradas. Por outro, enfrentará as inúmeras dificuldades para conseguir formar um governo capaz de atender a um parlamento tão distinto. No final das contas, o eleitor escolheu quem promete agir em detrimento daquele que faz os melhores discursos. "Os israelenses deixaram claro que estão cansados. Inclusive de protestar. Deixe-nos descansar. Ou nos aposentar", escreve no Jerusalem Post o pesquisador político e diplomata Itzhak Oren.